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Jornada dos caminhoneiros autônomos chega a 14 horas diárias, aponta CNTA

Quem vive de caminhão sabe que a rotina é pesada. Mas agora isso não é só percepção: é dado oficial. A pesquisa “Realidade do Caminhoneiro Autônomo 2025”, realizada pela CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos) e apresentada na Câmara dos Deputados, mostrou que os caminhoneiros autônomos brasileiros trabalham, em média, 14 horas por dia e 25 dias por mês.


Mais do que números, isso revela uma categoria que sustenta a economia do país, mas ainda enfrenta longas jornadas, pouco descanso, problemas de saúde e pressão financeira constante.


O que a pesquisa da CNTA mostrou


A pesquisa ouviu mais de 2 mil caminhoneiros autônomos, todos cadastrados no RNTRC, em postos de combustíveis, centros de cargas, balanças e pontos de parada em rodovias de Norte a Sul do Brasil.


Alguns dados gerais chamam atenção:


  • Jornada média: 14 horas por dia

  • Dias de trabalho: 25 dias por mês

  • Até 16 dias consecutivos longe de casa

  • Apenas 8 dias de “férias” por ano, em média


Ou seja: é uma rotina de trabalho muito acima do padrão saudável e com pouco tempo real para descanso e família.


No perfil da categoria, o estudo reforça que:


  • 99,7% dos entrevistados são homens;

  • Idade média de 46 anos, com quase metade entre 40 e 49 anos;

  • Baixa escolaridade: 43,8% têm ensino fundamental incompleto;

  • Muitos faturam alto em valores brutos, mas o faturamento líquido médio cai para cerca de R$ 14 mil, após custos de operação.


Ao mesmo tempo, 85,8% afirmam que nenhum filho quer seguir a profissão, o que mostra o quanto a nova geração enxerga a carreira como pouco atrativa.


Longa jornada, pouco descanso e muita pressão


Trabalhar, em média, 14 horas por dia não é apenas “puxado”: é um risco direto à segurança de quem dirige e de toda a cadeia logística.


Menos sono = mais fadiga.

Mais fadiga = mais chance de erro, desatenção e acidentes.


Tudo isso somado a estradas perigosas, prazos apertados e pressão por frete.


Outro dado crítico: 57,3% dos caminhoneiros autônomos aceitam fretes abaixo do piso mínimo, por necessidade, e não denunciam. Mesmo assim, só 6,1% acreditam que a lei do frete é realmente respeitada.


Ou seja, além da jornada longa, muitos trabalham ganhando menos do que deveriam por lei, o que aumenta a sensação de desvalorização e aperta ainda mais a conta no fim do mês.


Saúde no limite: corpo e mente cobrando a conta


A pesquisa também escancara o impacto dessa rotina na saúde dos motoristas:


  • 43,3% têm alguma comorbidade;

  • 19,4% sofrem com pressão alta;

  • 19,4% têm sobrepeso/obesidade;

  • 18,2% têm problemas de visão;

  • 15,9% relatam ansiedade;

  • 15,2% relatam estresse.


Nos hábitos de vida, o cenário é igualmente preocupante:


  • 86,5% não praticam nenhuma atividade física semanal;

  • Mais da metade (53%) faz apenas uma refeição por dia;

  • 27,8% admitem usar substâncias psicoativas para aguentar a jornada, o famoso rebite responde por 76,4% desses casos, seguido por cigarro (35,4%) e até drogas ilícitas.


Quando lembramos que esses profissionais conduzem veículos pesados, com dezenas de toneladas e muitas horas ao volante, fica claro: não é só um problema de saúde individual, é uma questão de segurança viária e logística nacional.


Pesquisas anteriores da própria CNTA já tinham mostrado que quase metade dos caminhoneiros autônomos já foi vítima de roubo de carga, e que boa parte afirma nunca se sentir segura nas estradas.


Somando tudo:


Jornada longa + baixa remuneração + risco nas estradas + saúde fragilizada

= uma profissão no limite.


Piso mínimo do frete: lei no papel, pressão na prática


O estudo mostra um ponto sensível da relação entre embarcadores, empresas e autônomos: o piso mínimo do frete.


  • 56% dizem conhecer a lei;

  • 57,3% assumem aceitar fretes abaixo do piso;

  • Apenas 6,1% acreditam que a legislação é efetivamente cumprida.


Ao mesmo tempo, houve um salto forte nas autuações da ANTT relacionadas ao piso, graças ao cruzamento eletrônico de dados via MDF-e: de cerca de 4,6 mil multas em 2022 para mais de 40 mil em 2025.


Isso cria um cenário de tensão constante:


  • O autônomo se sente pressionado a aceitar fretes abaixo do piso para não ficar parado;


  • As empresas também lidam com custos altos, competição intensa e incerteza regulatória;


  • O ambiente de conflito aumenta, e quem está na ponta da estrada segue pagando a conta com saúde e tempo de vida.

Jornada dos caminhoneiros autônomos chega a 14 horas diárias, aponta CNTA

O que isso significa para quem contrata frete e gerencia frota


Para embarcadores, indústrias, operadores logísticos e empresas que dependem de autônomos, essa pesquisa é um recado direto:


Risco para a operação: motorista cansado, estressado e mal remunerado tem maior probabilidade de acidentes, atrasos e falhas. Um sinistro grave pode parar uma rota estratégica, afetar contratos e imagem da empresa.


Responsabilidade compartilhada: não dá mais para olhar apenas o “menor frete”. A forma como a empresa negocia e pressiona prazo impacta diretamente a qualidade de vida de quem puxa a carga.


ESG também passa pela vida do caminhoneiro: falar de sustentabilidade vai além de emissões: inclui condições dignas de trabalho para quem mantém a logística rodando.


Como empresas podem ajudar a virar esse jogo: não dá para resolver sozinho um problema estrutural, mas cada empresa pode ser parte da solução. Alguns caminhos práticos:


1. Rever políticas de frete e prazo


Evitar prazos impossíveis que empurrem o motorista a trabalhar muito acima do limite de segurança;


Trabalhar com tabelas transparentes, considerando custos reais de pedágio, combustível, manutenção e tempo de espera;


Priorizar relações de longo prazo com autônomos, em vez de “caçar o mais barato”.


2. Incentivar pausas e descanso


Planejar janelas de entrega que permitam paradas seguras;


Orientar embarque e descarga para não deixar o caminhoneiro horas parado sem suporte;


Avaliar rotas e pontos de parada com banheiros, alimentação e segurança minimamente adequados.


3. Usar tecnologia a favor do motorista (e da operação)


Com rastreamento, telemetria e videotelemetria, é possível:


Acompanhar jornada de trabalho, períodos de direção contínua e pausas;


Identificar situações de risco (velocidade excessiva, direção agressiva, sonolência em videotelemetria);


Atuar com foco em prevenção, não apenas em punição.


Isso protege: a vida do motorista, a carga e o próprio negócio do embarcador.


4. Cuidar da relação humana


Tratar o caminhoneiro autônomo como parceiro, não como “custo variável”;


Ouvir feedbacks sobre estradas, prazos, pontos de parada e atendimento na origem/destino;


Construir uma reputação de empresa que respeita quem dirige, o que ajuda inclusive a não sofrer com falta de motoristas no futuro.


Quem move o Brasil não pode ser tratado como peça descartável


A pesquisa da CNTA confirma, com números, aquilo que o setor sente na pele: o caminhoneiro autônomo brasileiro está trabalhando muito, descansando pouco e sendo pressionado por todos os lados.


Para quem está na gestão de frotas – seja com veículos próprios ou contratando autônomos, esse tema não é periférico. Ele está no centro da segurança, da eficiência e da responsabilidade social da operação.


Na Ali Sat, a nossa visão é simples: não existe logística forte com caminhoneiro fraco.


Tecnologia, dados e gestão servem para proteger a operação, mas também para cuidar de quem está atrás do volante, todos os dias, movendo o Brasil.

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