Jornada dos caminhoneiros autônomos chega a 14 horas diárias, aponta CNTA
- Lidiane de Jesus

- 5 de jan.
- 5 min de leitura
Quem vive de caminhão sabe que a rotina é pesada. Mas agora isso não é só percepção: é dado oficial. A pesquisa “Realidade do Caminhoneiro Autônomo 2025”, realizada pela CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos) e apresentada na Câmara dos Deputados, mostrou que os caminhoneiros autônomos brasileiros trabalham, em média, 14 horas por dia e 25 dias por mês.
Mais do que números, isso revela uma categoria que sustenta a economia do país, mas ainda enfrenta longas jornadas, pouco descanso, problemas de saúde e pressão financeira constante.
O que a pesquisa da CNTA mostrou
A pesquisa ouviu mais de 2 mil caminhoneiros autônomos, todos cadastrados no RNTRC, em postos de combustíveis, centros de cargas, balanças e pontos de parada em rodovias de Norte a Sul do Brasil.
Alguns dados gerais chamam atenção:
Jornada média: 14 horas por dia
Dias de trabalho: 25 dias por mês
Até 16 dias consecutivos longe de casa
Apenas 8 dias de “férias” por ano, em média
Ou seja: é uma rotina de trabalho muito acima do padrão saudável e com pouco tempo real para descanso e família.
No perfil da categoria, o estudo reforça que:
99,7% dos entrevistados são homens;
Idade média de 46 anos, com quase metade entre 40 e 49 anos;
Baixa escolaridade: 43,8% têm ensino fundamental incompleto;
Muitos faturam alto em valores brutos, mas o faturamento líquido médio cai para cerca de R$ 14 mil, após custos de operação.
Ao mesmo tempo, 85,8% afirmam que nenhum filho quer seguir a profissão, o que mostra o quanto a nova geração enxerga a carreira como pouco atrativa.
Longa jornada, pouco descanso e muita pressão
Trabalhar, em média, 14 horas por dia não é apenas “puxado”: é um risco direto à segurança de quem dirige e de toda a cadeia logística.
Menos sono = mais fadiga.
Mais fadiga = mais chance de erro, desatenção e acidentes.
Tudo isso somado a estradas perigosas, prazos apertados e pressão por frete.
Outro dado crítico: 57,3% dos caminhoneiros autônomos aceitam fretes abaixo do piso mínimo, por necessidade, e não denunciam. Mesmo assim, só 6,1% acreditam que a lei do frete é realmente respeitada.
Ou seja, além da jornada longa, muitos trabalham ganhando menos do que deveriam por lei, o que aumenta a sensação de desvalorização e aperta ainda mais a conta no fim do mês.
Saúde no limite: corpo e mente cobrando a conta
A pesquisa também escancara o impacto dessa rotina na saúde dos motoristas:
43,3% têm alguma comorbidade;
19,4% sofrem com pressão alta;
19,4% têm sobrepeso/obesidade;
18,2% têm problemas de visão;
15,9% relatam ansiedade;
15,2% relatam estresse.
Nos hábitos de vida, o cenário é igualmente preocupante:
86,5% não praticam nenhuma atividade física semanal;
Mais da metade (53%) faz apenas uma refeição por dia;
27,8% admitem usar substâncias psicoativas para aguentar a jornada, o famoso rebite responde por 76,4% desses casos, seguido por cigarro (35,4%) e até drogas ilícitas.
Quando lembramos que esses profissionais conduzem veículos pesados, com dezenas de toneladas e muitas horas ao volante, fica claro: não é só um problema de saúde individual, é uma questão de segurança viária e logística nacional.
Pesquisas anteriores da própria CNTA já tinham mostrado que quase metade dos caminhoneiros autônomos já foi vítima de roubo de carga, e que boa parte afirma nunca se sentir segura nas estradas.
Somando tudo:
Jornada longa + baixa remuneração + risco nas estradas + saúde fragilizada
= uma profissão no limite.
Piso mínimo do frete: lei no papel, pressão na prática
O estudo mostra um ponto sensível da relação entre embarcadores, empresas e autônomos: o piso mínimo do frete.
56% dizem conhecer a lei;
57,3% assumem aceitar fretes abaixo do piso;
Apenas 6,1% acreditam que a legislação é efetivamente cumprida.
Ao mesmo tempo, houve um salto forte nas autuações da ANTT relacionadas ao piso, graças ao cruzamento eletrônico de dados via MDF-e: de cerca de 4,6 mil multas em 2022 para mais de 40 mil em 2025.
Isso cria um cenário de tensão constante:
O autônomo se sente pressionado a aceitar fretes abaixo do piso para não ficar parado;
As empresas também lidam com custos altos, competição intensa e incerteza regulatória;
O ambiente de conflito aumenta, e quem está na ponta da estrada segue pagando a conta com saúde e tempo de vida.

O que isso significa para quem contrata frete e gerencia frota
Para embarcadores, indústrias, operadores logísticos e empresas que dependem de autônomos, essa pesquisa é um recado direto:
Risco para a operação: motorista cansado, estressado e mal remunerado tem maior probabilidade de acidentes, atrasos e falhas. Um sinistro grave pode parar uma rota estratégica, afetar contratos e imagem da empresa.
Responsabilidade compartilhada: não dá mais para olhar apenas o “menor frete”. A forma como a empresa negocia e pressiona prazo impacta diretamente a qualidade de vida de quem puxa a carga.
ESG também passa pela vida do caminhoneiro: falar de sustentabilidade vai além de emissões: inclui condições dignas de trabalho para quem mantém a logística rodando.
Como empresas podem ajudar a virar esse jogo: não dá para resolver sozinho um problema estrutural, mas cada empresa pode ser parte da solução. Alguns caminhos práticos:
1. Rever políticas de frete e prazo
Evitar prazos impossíveis que empurrem o motorista a trabalhar muito acima do limite de segurança;
Trabalhar com tabelas transparentes, considerando custos reais de pedágio, combustível, manutenção e tempo de espera;
Priorizar relações de longo prazo com autônomos, em vez de “caçar o mais barato”.
2. Incentivar pausas e descanso
Planejar janelas de entrega que permitam paradas seguras;
Orientar embarque e descarga para não deixar o caminhoneiro horas parado sem suporte;
Avaliar rotas e pontos de parada com banheiros, alimentação e segurança minimamente adequados.
3. Usar tecnologia a favor do motorista (e da operação)
Com rastreamento, telemetria e videotelemetria, é possível:
Acompanhar jornada de trabalho, períodos de direção contínua e pausas;
Identificar situações de risco (velocidade excessiva, direção agressiva, sonolência em videotelemetria);
Atuar com foco em prevenção, não apenas em punição.
Isso protege: a vida do motorista, a carga e o próprio negócio do embarcador.
4. Cuidar da relação humana
Tratar o caminhoneiro autônomo como parceiro, não como “custo variável”;
Ouvir feedbacks sobre estradas, prazos, pontos de parada e atendimento na origem/destino;
Construir uma reputação de empresa que respeita quem dirige, o que ajuda inclusive a não sofrer com falta de motoristas no futuro.
Quem move o Brasil não pode ser tratado como peça descartável
A pesquisa da CNTA confirma, com números, aquilo que o setor sente na pele: o caminhoneiro autônomo brasileiro está trabalhando muito, descansando pouco e sendo pressionado por todos os lados.
Para quem está na gestão de frotas – seja com veículos próprios ou contratando autônomos, esse tema não é periférico. Ele está no centro da segurança, da eficiência e da responsabilidade social da operação.
Na Ali Sat, a nossa visão é simples: não existe logística forte com caminhoneiro fraco.
Tecnologia, dados e gestão servem para proteger a operação, mas também para cuidar de quem está atrás do volante, todos os dias, movendo o Brasil.




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