Corredor Logístico Sustentável: projeto da ANTT e ANTAQ quer integrar transporte no Brasil
- Felipe Vianna

- 24 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
A logística brasileira está começando a desenhar um novo capítulo: mais integrada entre modais, mais limpa e mais inteligente. Em dezembro de 2025, ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) e ANTAQ (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) assinaram uma cooperação para desenvolver um “Projeto Piloto de Corredor Logístico Sustentável de Transporte Multimodal”, o primeiro do tipo no país.
Na prática, isso significa testar um modelo de corredor que conecta rodovias, ferrovias e portos de forma coordenada, com foco em eficiência, sustentabilidade e tecnologia – e isso impacta diretamente caminhoneiros, transportadoras, embarcadores e operadores logísticos.
O que é um corredor logístico sustentável?
O projeto é descrito como um corredor inteligente, onde diferentes modais (rodoviário, ferroviário, aquaviário) são integrados para escoar cargas com:
Mais eficiência operacional (menos tempo, menos gargalos, menos custo logístico)
Menor emissão de poluentes, com incentivo a veículos mais limpos e soluções de eletromobilidade
Mais segurança viária, com ações coordenadas ao longo da rota
Impacto social positivo, beneficiando caminhoneiros e comunidades do entorno
Esse corredor será um “laboratório a céu aberto” para novas tecnologias, regras e modelos de operação – tudo em ambiente de sandbox regulatório, ou seja, com testes controlados e monitorados pelas agências.
Onde será o projeto-piloto?
O primeiro passo concreto desse plano está na BR-277, no Paraná, no trecho entre Curitiba e o Porto de Paranaguá, um dos principais canais de exportação de grãos do país.
Esse trecho será o coração do chamado Conexão Litoral, um projeto liderado pela concessionária EPR em parceria com ANTT, ANTAQ e a administração do Porto de Paranaguá.
Por que ali? Porque a região:
É um hub logístico nacional, conectando o porto a outras rodovias e ao Mercosul. Passa por uma área ambientalmente sensível da Mata Atlântica. Sofre com eventos climáticos e problemas de infraestrutura, exigindo soluções mais resilientes.
O que ANTT e ANTAQ querem com esse corredor?
Pelos documentos oficiais, o acordo entre as agências tem alguns objetivos bem claros:
Integrar modais de transporte
Aproximar rodovias e portos em um fluxo contínuo, com menos atrito entre “ponta rodoviária” e “ponta aquaviária”.
Facilitar a vida de quem precisa escoar grandes volumes com previsibilidade.
Reduzir impactos ambientais
Estruturar infraestrutura de eletromobilidade (pontos de recarga, suporte a veículos elétricos e híbridos).
Implementar gestão ambiental mais sofisticada ao longo do corredor.
Aumentar segurança e qualidade operacional
Integrar ações de segurança viária, sinalização e monitoramento.
Testar tecnologias para reduzir acidentes e melhorar a experiência do usuário na rodovia.
Estimular inovação e inclusão socioeconômica
Atrair embarcadores, operadores logísticos e multimodais para participar dos testes.
Promover desenvolvimento territorial sustentável nas regiões atravessadas pelo corredor.

O que vai mudar na prática?
O projeto prevê um conjunto de frentes que, somadas, criam um “ecossistema de corredor sustentável”:
Infraestrutura verde
Eletropostos e soluções de apoio à transição energética no transporte de cargas.
Estudo de tecnologias de menor emissão e eficiência energética.
Gestão integrada de segurança
Ações coordenadas entre concessionária, agências e porto para segurança no trecho.
Possível uso ampliado de monitoramento, dados em tempo real e sistemas de alerta.
Uso intensivo de tecnologia
Visão de longo prazo
O projeto-piloto deve servir como modelo para outros corredores e concessões, ajudando a redesenhar a forma como o Brasil pensa sua infraestrutura de transporte.
Por que isso importa para caminhoneiros, transportadoras e embarcadores? Embora o projeto ainda esteja em fase piloto, ele aponta algumas tendências importantes para quem vive de transporte e logística:
1. Operação mais previsível e eficiente
Com modais melhor integrados, a tendência é:
Redução de filas e gargalos em acessos a portos e terminais
Melhor planejamento de janelas de carregamento e descarga
Menos tempo de veículo parado, mais giro de frota e melhor aproveitamento de ativos
Para quem é caminhoneiro ou transportadora que opera nesse eixo, isso pode significar mais viagens concluídas com a mesma estrutura.
2. Pressão (e oportunidade) em sustentabilidade
À medida que o corredor se posiciona como “sustentável”, empresas que operam nele podem ser estimuladas – ou até exigidas no futuro – a:
Controlar melhor suas emissões
Investir em tecnologia de gestão de frota, telemetria e videotelemetria
Adotar políticas internas de condução econômica e direção segura
Quem estiver um passo à frente, medindo e documentando indicadores (consumo, ociosidade, comportamento de condução, emissões estimadas), ganha vantagem competitiva.
3. Tecnologia como fator obrigatório na gestão de risco
Um corredor multimodal inteligente tende a conversar cada vez mais com:
Sistemas de rastreamento em tempo real
Plataformas de videotelemetria para segurança e evidência em ocorrências
Ferramentas de análise de dados de frota (rotas, tempos, eventos críticos)
Para frotistas, isso não é mais “nice to have”, é base de operação em um cenário de logística conectada.
O Brasil ainda é muito rodoviário – e isso explica o tamanho do desafio
Hoje, o Brasil ainda depende fortemente das estradas: o modal rodoviário responde por mais de 60% das cargas movimentadas – chegando perto de 95% quando se exclui o minério de ferro, que é majoritariamente ferroviário.
MundoLogística
Outros países de dimensão continental, como Estados Unidos e Canadá, distribuem melhor o uso entre rodovias, ferrovias e hidrovias. Aqui, a matriz de transporte mudou pouco nas últimas décadas, o que aumenta custos, emissões e vulnerabilidade a problemas em pontos críticos da malha.
É nesse contexto que o corredor logístico sustentável ganha relevância: ele é um passo prático para tirar a multimodalidade do discurso e levar para o asfalto, os trilhos e os portos.
Como empresas podem se preparar desde já?
Mesmo sendo um piloto, o movimento de ANTT e ANTAQ indica uma direção clara: logística mais integrada, sustentável e orientada a dados. Para quem gere frota, algumas ações fazem sentido desde já:
Profissionalizar a gestão de frota
Estruturar indicadores de utilização, consumo, manutenção e segurança.
Monitorar rotas estratégicas como a BR-277 e demais corredores de alto fluxo.
Investir em tecnologia embarcada
Rastreadores confiáveis, sensores e videotelemetria para aumentar controle e reduzir riscos.
Uso de dados para apoiar decisões de rota, jornada, paradas e manutenção.
Conectar ESG à operação real
Não basta ter discurso de sustentabilidade: é preciso medir, provar e melhorar continuamente. Projetos como esse corredor tendem a valorizar empresas que já têm uma gestão madura de frota.
Um corredor, muitos sinais de futuro
O corredor logístico sustentável ANTT–ANTAQ ainda está em fase de estruturação, mas já manda um recado claro para o mercado:
O futuro da logística no Brasil passa por integração de modais, uso intensivo de tecnologia e compromisso real com sustentabilidade.
Para caminhoneiros, transportadoras, operadores e embarcadores, isso significa que quem se organizar desde agora em termos de dados, controle e eficiência de frota vai surfar melhor essa transformação – em vez de apenas reagir a ela.
E você, gestor de frota: já está medindo o suficiente da sua operação para participar de um corredor verdadeiramente inteligente e sustentável quando ele chegar na sua rota?




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