Fim da escala 6×1 e a elevação dos custos logísticos: o que está em debate
- Felipe Vianna

- há 9 horas
- 3 min de leitura
A discussão sobre o fim da escala 6×1 (seis dias de trabalho para um de descanso) voltou com força em 2026, e o setor de transporte já está fazendo as contas. Entidades do TRC alertam que uma mudança estrutural na jornada, sem considerar as particularidades do transporte rodoviário e a escassez de mão de obra, tende a aumentar custos operacionais e pressionar toda a cadeia logística, do embarcador ao consumidor final.
Se a jornada for reduzida, mantendo-se a necessidade de entregas e o nível de serviço, muitas empresas precisarão contratar mais pessoas para fazer o mesmo volume e isso inevitavelmente encarece a operação.
O que está em pauta hoje
Duas propostas ganham destaque:
PEC 8/25, da deputada Erika Hilton, relacionada ao fim da escala 6×1;
PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes, com foco em redução da carga horária semanal.
Ambas foram encaminhadas para a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ), e o tema foi citado como prioridade política para 2026.
Importante: até aqui, não existe data definida para extinção da escala 6×1, o que existe é debate, tramitação e pressão setorial.
Por que o transporte rodoviário sente mais esse impacto
O TRC tem uma particularidade que muita gente fora do setor ignora: a operação não “para”. Entrega, coleta, transferências e abastecimento rodam em janelas apertadas, com sazonalidades e variáveis (trânsito, filas, segurança, clima, restrições urbanas).
E existe um agravante: falta motorista. 65,1% das empresas de transporte rodoviário de cargas relatam falta de motoristas profissionais.
Ou seja: reduzir jornada sem ampliar oferta de mão de obra pode gerar um “efeito tesoura”: menos horas disponíveis por trabalhador. Sem gente suficiente para preencher o gap, o custo sobe, prazo estica e a regularidade cai.
Onde o custo aparece (na prática)
Quando entidades falam em “aumento de custos logísticos”, normalmente é isso aqui:
Mão de obra (folha + encargos): se a empresa precisar de mais equipes/turnos para manter o nível de serviço, o custo direto sobe.
Custo administrativo e de gestão operacional: mais pessoas, mais escala, mais controle, mais treinamento e mais coordenação.
Risco de queda de produtividade: sem planejamento, a operação vira remendo: mais ociosidade, mais espera, mais retrabalho.
Repasse na cadeia: como destacou o SETCESP na matéria, esses custos tendem a ser diluídos na cadeia logística e acabam chegando ao consumidor.

Como transportadoras podem se preparar sem esperar a lei “cair no colo”
Independentemente de como a discussão avance, o setor pode agir agora com o que está no seu controle: produtividade e previsibilidade.
1) Reduzir desperdício operacional (o “custo invisível”): tempo parado em fila/pátio, rota mal planejada, reentrega por falha de comunicação, deslocamento vazio e paradas fora do padrão.
2) Transformar jornada em processo, não em improviso: quanto mais a escala depende de “jeitinho”, mais caro fica adaptar qualquer mudança. Operações maduras trabalham com regras de parada e descanso, janelas realistas, comunicação padronizada entre base e motorista e protocolo de exceção (quando dá errado).
3) Usar tecnologia para aumentar produtividade por veículo e por hora: se a disponibilidade de mão de obra ficar mais crítica, a tendência é vencer quem roda com menos ociosidade, tem menos sinistro e menos manutenção por condução agressiva e toma decisão com base em evidência, não em briga.
Para nós, esse debate reforça uma verdade simples: o custo logístico não sobe só por causa de lei, ele sobe quando a operação é pouco previsível.
Por isso, soluções de rastreamento e videotelemetria deixam de ser “acessório” e viram ferramenta de gestão para: padronizar rotas e paradas, reduzir incidentes e multas, melhorar a condução (menos desgaste, menos manutenção) e aumentar controle e previsibilidade da frota.
Em um cenário de possível redução de jornada, ganhar produtividade “por dentro” é o que evita que a empresa dependa apenas de contratar mais.
“Se a jornada mudar, quem não tiver processo vai sofrer dobrado: falta gente, falta padrão e sobra custo. A saída não é só discutir lei — é preparar a operação para ser mais previsível, mais eficiente e mais segura. No fim, produtividade é o que protege a margem.”
Alisson de Freitas, CEO Ali Sat




Comentários