Fim da escala 6×1 pode aumentar em 10% o custo da hora trabalhada no transporte de cargas
Redução da jornada semanal deve exigir reorganização das transportadoras, com possíveis impactos nas despesas operacionais e no valor do frete.
O fim da escala de trabalho 6×1 representa uma mudança importante para o transporte rodoviário de cargas no Brasil. Com a redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem alteração nos salários, as transportadoras precisarão rever suas escalas, dimensionar equipes e avaliar os impactos financeiros da nova legislação.
Um levantamento realizado pelo Instituto Paulista do Transporte de Cargas (IPTC), a pedido do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região (SETCESP), estima que a mudança poderá elevar em 10% o custo da hora trabalhada, criando novos desafios para a gestão operacional e financeira das empresas do setor.
Impacto financeiro pode ultrapassar R$ 500 mil por ano
Para avaliar os possíveis efeitos da redução da jornada, o estudo considerou uma transportadora fictícia com 50 motoristas e 20 profissionais envolvidos nas atividades operacionais.
Na simulação, um aumento de 12% nas despesas com pessoal, provocado pela necessidade de horas extras e adaptações para manter a produtividade, elevaria os gastos mensais de R$ 372,3 mil para aproximadamente R$ 416,9 mil.
A diferença representa um custo adicional estimado em R$ 536 mil por ano.
Os números são ilustrativos e não representam uma previsão uniforme para todas as transportadoras. O impacto real dependerá do tamanho da frota, da quantidade de funcionários, das características das operações e das alternativas adotadas por cada empresa.
O que muda com a nova jornada de trabalho?
A Emenda Constitucional nº 141/2026, promulgada em 16 de outubro, estabelece uma transição gradual para a nova organização da jornada de trabalho, garantindo dois dias de descanso semanal remunerado e mantendo os salários.
O cronograma prevê duas etapas principais:
Dezembro de 2026: redução da jornada máxima semanal de 44 para 42 horas.
Dezembro de 2027: implementação do limite de 40 horas semanais.
A legislação também permite determinadas adaptações por meio de acordos e convenções coletivas, respeitando as condições e os limites estabelecidos.
Transportadoras terão desafios na reorganização das operações
No transporte rodoviário de cargas, a redução das horas disponíveis de trabalho exige atenção especial. Diferentemente de atividades com horários fixos, o setor depende de viagens de longa distância, operações contínuas, prazos de entrega e equipes distribuídas em diferentes turnos.
Para manter a capacidade operacional, algumas empresas poderão precisar contratar profissionais adicionais, redistribuir jornadas ou ampliar a utilização de horas extras dentro dos limites legais.
Outro ponto de atenção envolve a disponibilidade de motoristas qualificados, uma dificuldade que já faz parte da realidade de muitas transportadoras brasileiras.
Além disso, as novas disposições precisarão ser compatibilizadas com a Lei nº 13.103/2015, conhecida como Lei do Motorista, especialmente nas questões relacionadas ao tempo de direção, intervalos e períodos de descanso.
O valor do frete também poderá ser afetado
O aumento do custo da mão de obra poderá influenciar a formação dos preços do transporte, principalmente nas empresas que dependem de grandes equipes para realizar atividades de distribuição, movimentação de mercadorias e apoio logístico.
Entretanto, o crescimento de 10% no custo da hora trabalhada não significa um reajuste automático de 10% no frete.
A repercussão nos preços dependerá de fatores como estrutura de custos, contratos comerciais, produtividade e margem operacional de cada transportadora.

Planejamento e eficiência operacional serão fundamentais
Diante das mudanças, as empresas de transporte precisarão avaliar antecipadamente seus processos para evitar que a redução da jornada comprometa a continuidade das operações.
A revisão das escalas, o acompanhamento dos custos com pessoal, a análise dos contratos e a busca por maior produtividade serão medidas importantes durante o período de adaptação.
Nesse cenário, a tecnologia aplicada à gestão de frotas também ganha relevância, permitindo acompanhar a utilização dos veículos, identificar períodos de ociosidade, otimizar rotas e melhorar o aproveitamento dos recursos disponíveis.
Mais do que uma mudança na jornada de trabalho, o fim da escala 6×1 exigirá das transportadoras uma gestão cada vez mais estratégica, orientada por dados e focada na eficiência operacional.





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