Defasagem de 10% no frete: sua transportadora está trabalhando mais e ganhando menos
- Alisson Dias

- há 2 dias
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Você está trabalhando mais em 2026. Rodou mais, atendeu mais clientes, colocou mais veículos na estrada. E ainda assim o fechamento do mês ficou apertado.
Não é impressão. É estrutural.
Segundo avaliação da Federação das Empresas de Transportes de Cargas do Estado de São Paulo (FETCESP), a alta do frete rodoviário em 2026 não tem representado ganho real para as transportadoras, o aumento registrado no período reflete apenas uma recomposição parcial diante da elevação dos custos operacionais.
O número que resume o problema: de acordo com levantamento da NTC&Logística, o frete rodoviário apresentava defasagem média de 10,1% no início de 2026 e mesmo com a alta do frete, essa diferença não foi eliminada.
Em outras palavras, o transportador pode trabalhar mais, assumir mais risco e ainda assim operar com margem reduzida. Para quem gerencia frota, entender esse cenário é o primeiro passo para não deixar a situação se agravar ainda mais.
O que gerou essa defasagem
A defasagem entre custo e frete não apareceu do dia para a noite. Ela é resultado de um acúmulo de pressões que o setor vem absorvendo ao longo dos últimos anos e que chegaram ao ponto de ruptura em 2026.
Diesel em alta e repasse lento: o diesel responde por 43,2% do custo operacional do transporte rodoviário de cargas e qualquer variação no seu preço se reflete quase imediatamente no valor cobrado pelo transporte. Apesar dessa pressão, em 2025, 55,6% das empresas reajustaram os preços com aumento médio de 6%, enquanto 23,7% mantiveram os valores e 20,8% chegaram a aplicar descontos. O resultado foi uma corrosão silenciosa da margem ao longo dos meses.
Mão de obra mais cara e mais escassa: os motoristas representam 19,5% dos custos operacionais do transporte rodoviário. Nos últimos 24 meses, o custo com mão de obra acumulou alta de 13,42%, acima da variação dos veículos e acima da oscilação do combustível no mesmo período. Em 36 meses, o aumento chega a 20,2%.
Reoneração da folha adicionando mais pressão
Simulações indicam que o impacto médio direto da reoneração da folha de pagamento sobre o transporte rodoviário de cargas alcança cerca de 1,5% ao ano, com impacto acumulado de 3% em 2026, equivalente a aproximadamente 60% do lucro médio do setor.
Cada fator isolado seria gerenciável. Juntos, eles formaram a tempestade perfeita para comprimir margens.

Os primeiros sinais de alerta na operação
Os primeiros impactos desse descompasso aparecem no fluxo de caixa e na capacidade de investimento das transportadoras. O cenário pode afetar a renovação de frota, investimentos em tecnologia, segurança e qualificação.
É um ciclo perigoso: margem reduzida leva a menos investimento, que leva a frota mais velha, mais cara de manter e menos competitiva. Transportadoras que não interrompem esse ciclo cedo o suficiente acabam presas nele.
O sinal de alerta não é a conta do mês fechando no vermelho, esse já é o estágio avançado. Os sinais chegam antes: manutenções corretivas acima do esperado, consumo de combustível crescendo sem explicação clara, motoristas operando em condições que aumentam o risco de sinistros e multas. Esses são os custos invisíveis que precedem o problema maior.
O que está ao alcance do gestor de frota agora
A defasagem entre custo e frete é um problema estrutural do setor e parte dele não está sob controle do gestor de frota. Mas a eficiência interna da operação está. E é exatamente aí que mora a oportunidade de proteger a margem sem depender de um reajuste de tabela que pode não chegar.
Controle real do consumo de combustível
Comportamentos como aceleração brusca, excesso de velocidade e motor ligado parado aumentam o consumo de diesel de forma silenciosa. Com telemetria embarcada, o gestor identifica esses padrões por motorista e por rota e intervém antes que o desperdício apareça no fechamento do mês. Em frotas com alta quilometragem, uma redução de 8% a 12% no consumo é perfeitamente alcançável com monitoramento consistente.
Manutenção preditiva no lugar de corretiva
Frota parada por quebra é custo duplo: o conserto e a receita perdida. Com monitoramento em tempo real, é possível antecipar intervenções com base no uso real dos veículos, reduzindo paradas não planejadas e prolongando a vida útil dos ativos.
Redução de multas e sinistros: cada multa tem um custo direto e um custo indireto que vai além do valor da autuação: pontuação na CNH, risco de afastamento do motorista, processo administrativo. Monitorar comportamento ao volante em tempo real reduz a exposição a esses eventos, especialmente agora que novos radares da PRF entram em operação nas rodovias federais.
Dados para negociar melhor: com histórico de operações, custo real por rota e indicadores de desempenho, o gestor tem argumentos concretos para recusar fretes que não cobrem o custo da estrutura e para negociar condições mais justas com embarcadores. Dado é poder de negociação.
O transportador pode trabalhar mais, assumir mais risco e ainda assim operar com margem reduzida. Essa frase resume o momento do setor e também aponta onde a solução precisa começar: não em trabalhar mais, mas em operar de forma mais inteligente.
Em um cenário onde o frete não acompanha o custo, cada real economizado dentro da operação vale mais do que qualquer reajuste que o mercado possa oferecer. Gestão de frota deixou de ser ferramenta de controle para se tornar instrumento de sobrevivência financeira.




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