Balanço FETCESP 2026: os desafios do transporte de cargas para o 2º semestre
- Lidiane de Jesus

- há 13 horas
- 4 min de leitura
O primeiro semestre de 2026 já deixou um recado claro para quem opera frotas no Brasil: a complexidade chegou para ficar. É o que mostra o balanço divulgado pela Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Estado de São Paulo (FETCESP), que reuniu os principais movimentos do setor nos últimos seis meses e projetou os desafios que vêm pela frente.
Segundo a entidade, o Transporte Rodoviário de Cargas (TRC) viveu um semestre marcado por mudanças regulatórias, pressão sobre custos e debates trabalhistas, uma combinação que vai continuar exigindo planejamento estratégico das transportadoras pelo resto do ano. Carlos Panzan, presidente da FETCESP, resumiu bem o momento: o desafio das empresas deixou de ser apenas operacional. Hoje é preciso acompanhar um ambiente regulatório dinâmico, investir em tecnologia e manter capacidade de adaptação rápida para preservar eficiência e competitividade.
Para quem gerencia frota, frete ou operação logística, esse balanço não é só notícia de jornal. É um termômetro do que vai pesar no orçamento e na rotina nos próximos meses. Vamos por partes.
Regulação que não para: CIOT, MDF-e e fiscalização eletrônica
Um dos pontos mais citados pela FETCESP foram as novas exigências envolvendo o Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT), as alterações no Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais (MDF-e) e o avanço da fiscalização eletrônica. Para a entidade, essas mudanças forçaram as transportadoras a investir em tecnologia, revisar processos internos e reforçar controles operacionais, tudo ao mesmo tempo.
Isso confirma uma tendência que já vínhamos acompanhando: a digitalização da fiscalização não é mais opção, é pré-requisito. Empresas que ainda operam com processos manuais ou sistemas fragmentados vão sentir esse peso dobrado, porque vão precisar correr atrás da conformidade e da eficiência operacional ao mesmo tempo.
Diesel e defasagem de frete continuam pressionando as margens
O balanço também reforça um problema estrutural que já é velho conhecido do setor: o custo do diesel. Depois de acumular alta de até 19% em março, o combustível continua sendo um dos principais vilões do orçamento das transportadoras, podendo representar entre 35% e 50% do valor do frete e ultrapassar 70% em algumas operações específicas.
Para piorar, um levantamento da NTC&Logística apontou uma defasagem média de 10,1% no frete rodoviário no início do ano. Na prática, isso significa que muitas transportadoras estão operando com margens ainda mais apertadas do que o normal, tendo que absorver custos crescentes sem repassar integralmente esse valor ao frete cobrado.
É exatamente nesse cenário que cada litro de diesel desperdiçado, cada rota mal planejada e cada hora de caminhão parado pesam mais do que nunca. Operação enxuta deixou de ser diferencial, é sobrevivência.
Fim da escala 6x1 pode custar quase R$ 12 bilhões ao setor
Entre os temas que mais preocupam as transportadoras está a discussão sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada semanal de trabalho. Um estudo encomendado pela CNT estimou que a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais pode elevar os custos com mão de obra no setor em 8,66%, gerando um impacto anual de aproximadamente R$ 11,9 bilhões.
O mesmo levantamento apontou que, para manter os níveis atuais de operação, seria necessária a contratação de cerca de 240 mil novos trabalhadores em todo o setor. O problema é que essa conta não fecha fácil: o TRC já enfrenta um déficit estimado em mais de 100 mil motoristas profissionais, além de dificuldades para preencher outros cargos operacionais.
Panzan resumiu a tensão do debate: o transporte de cargas é atividade essencial para o abastecimento da economia, e qualquer mudança estrutural precisa considerar os impactos sobre custos, produtividade e capacidade de atendimento. Para as transportadoras, isso significa um desafio duplo, encontrar mão de obra qualificada e, ao mesmo tempo, extrair o máximo de produtividade de cada motorista que já está na frota.
Cenário político-econômico exige previsibilidade
A FETCESP também chamou atenção para o ambiente político e econômico do país, especialmente com o calendário eleitoral em curso e os preparativos para a implementação gradual da Reforma Tributária. Segundo Panzan, a tendência é que o segundo semestre continue exigindo alto nível de planejamento e capacidade de adaptação, porque o setor precisa de previsibilidade para investir, organizar operações e manter competitividade.
A entidade ainda reforçou a importância do Índice CNT de Confiança do Transportador Rodoviário de Cargas como ferramenta para acompanhar as expectativas do setor diante desse cenário de incertezas.

O que isso significa na prática para quem gerencia frota
Diante desse panorama, alguns pontos de atenção ficam claros para gestores de frota, logística e operações:
Revisar processos de conformidade regulatória (CIOT, MDF-e) antes que a fiscalização eletrônica vire um problema, não uma rotina
Monitorar de perto o consumo de combustível, já que o diesel continua sendo a variável de maior impacto no custo do frete
Mapear rotas e horários com mais precisão para reduzir desperdício de tempo e quilometragem improdutiva
Acompanhar a produtividade da frota e dos motoristas atuais, considerando o cenário de déficit de mão de obra
Se antecipar a mudanças regulatórias e trabalhistas, em vez de reagir a elas depois que já entraram em vigor
Em um setor onde a margem de erro é cada vez menor, ter visibilidade real da operação, de cada rota, cada parada, cada comportamento ao volante, é o que separa uma transportadora que apenas sobrevive de uma que continua competitiva.
Tecnologia como aliada na adaptação constante
O balanço da FETCESP deixa uma mensagem: o transporte de cargas no Brasil entrou numa era em que adaptação rápida não é mais exceção, é rotina. Regulação, custos e questões trabalhistas vão continuar mudando e quem não tiver dados confiáveis sobre a própria operação vai sentir esse impacto com mais força.
É aqui que a gestão de frotas com videotelemetria faz diferença. Não se trata de vigiar o motorista, mas de dar a ele e à empresa as informações certas para tomar decisões melhores: rotas mais eficientes, consumo de combustível sob controle, comportamento de direção mais seguro e operação mais previsível, justamente o que o cenário atual está exigindo de cada transportadora.
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